Durante muitos anos, a saúde e segurança dos trabalhadores eram associadas a acidentes físicos, como quedas e exposição a máquinas sem proteção. Contudo, uma mudança significativa tem ocorrido nas empresas brasileiras: o sofrimento psicológico, incluindo ansiedade, estresse crônico e síndrome de burnout, está se tornando cada vez mais comum. Problemas que antes eram vistos como fragilidades individuais agora exigem uma atenção institucional mais cuidadosa.
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em 26 de maio de 2026, amplia a responsabilidade das empresas em relação à saúde mental de seus empregados. Com essa atualização, as organizações devem incluir os riscos psicossociais nos Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso significa que fatores como carga excessiva de trabalho, assédio moral, pressão excessiva e jornadas exaustivas devem ser identificados e avaliados, visando prevenir o adoecimento dos trabalhadores.
Essa mudança surge em um contexto delicado. Dados do Ministério da Previdência Social revelam que, em 2024, cerca de 472 mil trabalhadores foram afastados devido a transtornos mentais, um crescimento de 68% em relação ao ano anterior. Em 2025, mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais foram concedidos, com ansiedade e depressão figurando entre as principais causas de afastamento.
Psicologicamente, o adoecimento no trabalho é um processo gradual. Trabalhadores submetidos a cobranças excessivas e ambientes hostis podem entrar em estado de alerta constante, levando a sintomas como irritabilidade, alterações no sono e dificuldade de concentração. A longo prazo, isso pode resultar em crises de ansiedade, depressão e até problemas físicos como dores crônicas e hipertensão.
“Muitos trabalhadores sentem que não conseguem desligar a mente após o expediente e acabam se sentindo culpados por descansar”,
afirmam especialistas. Esse comportamento, conhecido como presenteísmo, ocorre quando a pessoa está fisicamente presente, mas emocionalmente esgotada. Além do impacto negativo sobre a saúde do trabalhador, a saúde mental também afeta diretamente as empresas, que enfrentam aumento de afastamentos, queda na produtividade e dificuldade para reter talentos.
A NR-1 não é apenas uma obrigação legal, mas uma tentativa de promover uma mudança cultural nas organizações. A norma não pretende transformar empresas em clínicas psicológicas, mas sim reconhecer que a forma como o trabalho é organizado pode contribuir para o adoecimento.
No entanto, a implementação da norma ainda gera dúvidas. Um dos mitos comuns é que qualquer trabalhador fragilizado emocionalmente poderá responsabilizar automaticamente a empresa. Na verdade, a NR-1 exige que as empresas identifiquem e administrem os riscos existentes no ambiente de trabalho.
Outro mito é a crença de que a saúde mental é uma questão pessoal, alheia ao ambiente corporativo. Essa ideia ignora a realidade de que o trabalho influencia diretamente a autoestima e a qualidade de vida dos trabalhadores.
A fiscalização da NR-1 será realizada por meio da análise de documentos e verificação das ações implementadas pelas empresas. O Ministério do Trabalho avaliará se os riscos psicossociais foram adequadamente integrados ao PGR e quais medidas preventivas foram adotadas. A abordagem deixa de ser apenas reativa e passa a exigir ações preventivas contínuas.
A maior transformação proposta pela NR-1 é a autorização social para discutir saúde mental nas empresas. Por muito tempo, o sofrimento psicológico foi visto como fraqueza, levando muitos trabalhadores a esconderem seus sintomas por medo de julgamentos. É fundamental romper essa lógica, pois ambientes saudáveis são aqueles onde as pessoas podem reconhecer seus limites e buscar apoio, sem que sua saúde seja o preço pago pela produtividade.
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