Organizações do movimento negro e de direitos civis dos Estados Unidos reagiram com críticas e denúncias de um ataque à democracia após a decisão da Suprema Corte que anulou o mapa eleitoral para o Congresso do estado da Louisiana. A corte, de maioria conservadora, considerou que o desenho dos distritos do estado recorreu excessivamente a critérios raciais.
O presidente da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), Derrick Johnson, afirmou que a democracia americana “clama por socorro” e classificou a decisão como “um golpe devastador” contra os restos da Lei dos Direitos de Voto, acusando a Suprema Corte de trair eleitores negros e a própria democracia. A declaração da NAACP está disponível em naacp.org.
Por seis votos a três, o tribunal reformulou o entendimento sobre a aplicação da Lei dos Direitos de Voto ao avaliar o mapa da Louisiana e determinou que dois distritos de maioria negra devem ser modificados. A alteração, segundo autoridades e analistas, pode mudar a composição partidária da delegação do estado no Congresso.
Na sequência da decisão, o governador da Louisiana, Jeff Landry, cancelou, na quinta-feira (30), as primárias dos partidos previstas para 16 de maio, alegando necessidade de ajustar os mapas eleitorais antes da votação.
Repercussão e posicionamentos
O reverendo Al Sharpton, presidente da National Action Network, afirmou que a decisão “desmantelou” o trabalho de Martin Luther King e descreveu o veredito como “uma bala no coração do movimento pelos direitos de voto”, em referência às marchas históricas pelos direitos civis. Sharpton divulgou seu posicionamento publicamente, conforme comunicado da organização.
O presidente Donald Trump comemorou a decisão. Em declaração a jornalistas na Casa Branca disse: “Esse é o tipo de decisão que eu gosto”. Em postagem em rede social, Trump agradeceu ao governador da Louisiana por ter levado o caso à Suprema Corte e por agir “com tanta rapidez para corrigir a inconstitucionalidade dos mapas eleitorais da Louisiana”. No mesmo dia, ele encorajou o governador do Tennessee a redesenhar distritos para favorecer os republicanos, afirmando que isso “deve nos dar uma cadeira a mais e ajudar a salvar nosso país dos democratas da esquerda radical e de suas políticas destrutivas”.
Por outro lado, lideranças democratas prometeram reagir para evitar perda de representação e combater práticas de manipulação de limites eleitorais (gerrymandering), que podem ter impacto nas eleições legislativas de meio de mandato marcadas para novembro deste ano.
A ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) classificou a decisão como “vergonhosa” e disse que a Lei dos Direitos de Voto é a “espinha dorsal da nossa democracia multirracial”. Alanah Odoms, diretora da ACLU na Louisiana, afirmou que eleitores devem escolher seus representantes e alertou que políticos contrários ao direito de voto interpretarão a decisão como sinal verde para novas restrições. Veja mais no site da ACLU local.
Contexto do gerrymandering
No sistema eleitoral dos EUA, que adota o modelo distrital, cada candidato precisa obter maioria em um distrito específico para ser eleito, diferente do modelo proporcional usado no Brasil. O redesenho das fronteiras eleitorais pode diluir a votação de minorias em áreas urbanas majoritariamente negras ou latinas, dividindo essas populações entre vários distritos onde passam a ser minoria diante de eleitores brancos e rurais incluídos nas novas delimitações.
Analistas citam que iniciativas recentes de alteração de mapas em estados como Texas, Flórida, Missouri, Carolina do Norte e Ohio tendem a beneficiar os republicanos, enquanto mudanças na Califórnia, Utah e Virgínia favorecem os democratas. A Flórida foi mencionada como o oitavo estado a alterar mapas para a eleição parlamentar de 2026, e o impacto dessas reformas tem sido alvo de cobertura e debate nacional.
Além da decisão específica sobre a Louisiana, a Suprema Corte publicou o acórdão do caso, disponível em supremecourt.gov, que orientará como cortes e legislaturas estaduais poderão avaliar reclamações relacionadas ao uso de critérios raciais no desenho de distritos eleitorais.
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