Vídeos em animação estilo “Lego” são usados para divulgar narrativa pró-Irã, diz reportagem
Transmissão: Band
Clipes curtos, produzidos por inteligência artificial e com estética que lembra peças de Lego, têm circulado amplamente nas redes sociais mostrando cenas de combate, mortes de crianças, aviões abatidos e figuras políticas como o ex‑presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Pesquisadores, jornalistas e especialistas ouvidos pela reportagem identificam o material como propaganda favorável ao Irã, vinculada a uma conta chamada Explosive Media.
O operador da conta, identificado como “Sr. Explosive” em entrevista ao podcast Top Comment, da BBC, inicialmente negou trabalhar para o governo iraniano, mas acabou reconhecendo que o regime é um “cliente” de sua equipe. Em conversas anteriores, a Explosive Media havia declarado ser “totalmente independente”.
Segundo o próprio Sr. Explosive, sua equipe tem menos de dez pessoas e escolhe o formato de blocos porque acredita ser “uma linguagem universal”. Em vídeo onde aparece em silhueta, ele admite contratos com autoridades iranianas; em publicações antigas no Instagram disse ter sido contratado diretamente por autoridades do país.
As peças combinam imagens estilizadas com referências culturais ocidentais e narrativas alternativas — por exemplo, inserindo arquivos ligados a Jeffrey Epstein em contextos que insinuam vínculos com políticos dos EUA — e também divulgam versões incorretas sobre episódios recentes da guerra. Em um dos clipes a Explosive Media mostra um piloto americano sendo capturado pelo Exército iraniano; autoridades dos EUA afirmaram, no entanto, que o militar isolado em área remota foi resgatado por forças especiais em 4 de abril e depois recebeu tratamento no Kuwait.
O conteúdo tem amplo alcance: estima‑se que vídeos de propaganda gerados por IA foram vistos centenas de milhões de vezes desde o início do conflito. Contas de mídia estatal iraniana e perfis russos no X têm compartilhado repetidamente os clipes, ampliando sua difusão entre públicos de língua inglesa.
Especialistas ouvidos pela reportagem qualificam o material como “altamente sofisticado” e alertam que a IA facilita a produção de mensagens culturalmente adaptadas ao público ocidental. Emma Briant destacou a eficácia da técnica; Tine Munk, da Nottingham Trent University, descreveu a tática como uma “guerra memética defensiva” destinada a combater narrativas adversárias.
Os vídeos começaram a surgir no início de 2025 e ganharam mais tração após a escalada do conflito em fevereiro, quando, segundo a reportagem, ataques de EUA e Israel ao Irã impulsionaram a circulação de imagens. Muitos clipes representam destruições detalhadas em locais do Golfo — usinas, aeroportos e áreas industriais — apesar de, na prática, esses locais terem sofrido danos limitados em grande parte dos casos.
Os materiais costumam aparecer “em tempo real”, publicando‑se logo após eventos importantes; um vídeo sobre um acordo de cessar‑fogo, por exemplo, foi divulgado antes de qualquer anúncio oficial. Plataformas de redes sociais vêm derrubando contas que publicam os vídeos, mas novas páginas ressurgem com rapidez, segundo pesquisadores.
O Sr. Explosive defende seu trabalho como “honroso” e contestou críticas: negou que os vídeos sejam antissemítas, classificando‑os como antissionistas, e atribuiu os protestos internos no Irã a um “golpe” financiado por Donald Trump. A maior parte da população iraniana enfrenta restrições de acesso à internet devido a bloqueios nacionais, enquanto o entrevistado afirmou ter usado acesso especial para jornalistas concedido pelo governo para contatar a BBC.
Especialistas consultados alertam que esse tipo de produção pode se consolidar como uma forma de diplomacia digital rápida e agressiva, que contorna meios de comunicação tradicionais e complica a compreensão dos fatos durante o conflito.
Com informações de G1
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