Sucesso do assistente OpenClaw na China reflete ambições e contradições do país em IA

William Kevim
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OpenClaw, apelidado de “lagosta” na China, provocou um surto de interesse no país em março ao permitir que usuários adaptassem o código aberto para modelos de inteligência artificial chineses. Criado pelo desenvolvedor austríaco Peter Steinberger, o projeto usa dados e tecnologias em domínio público e tem sido usado por milhares de pessoas para customizar assistentes de IA locais, numa reação impulsionada pela dificuldade de acesso a modelos ocidentais como ChatGPT e Claude.

Um dos usuários, identificado apenas como Wang, engenheiro de TI, relatou que adaptou o código do OpenClaw para automatizar tarefas de sua loja virtual no TikTok — atividade que ele mantém em sigilo porque comércio pela plataforma enfrenta restrições na China. Segundo Wang, enquanto ele consegue gerenciar cerca de 12 anúncios por dia manualmente, sua versão personalizada do assistente chegou a gerar até 200 anúncios em dois minutos, fazendo comparações de preços e produzindo descrições automaticamente.

O interesse se espalhou rapidamente por diferentes segmentos: desde estudantes do ensino médio até aposentados, muitos formaram filas em frente às sedes da Tencent e da Baidu por versões gratuitas ou personalizadas. Figuras públicas também relataram uso intenso; o escritor e comediante Li Dan disse que chegou a sonhar que conversava com sua “lagosta”, e Fu Sheng, CEO da Cheetah Mobile, divulgou nas redes sociais como treinou sua própria versão.

O fenômeno atraiu atenção internacional: o CEO da Nvidia, Jensen Huang, descreveu o OpenClaw como “o próximo ChatGPT”, e seu criador Peter Steinberger passou a integrar a OpenAI. No entanto, especialistas apontam que o entusiasmo que impulsionou o OpenClaw foi particularmente forte na China, segundo Wendy Chang, do centro MERICS.

O surgimento do OpenClaw ocorre num contexto de investimentos sustentados em tecnologia básica e plataformas de código aberto na China. Antes dele, o aplicativo DeepSeek, desenvolvido por engenheiros formados em universidades chinesas de elite, já havia ganhado destaque. Governos locais também passaram a oferecer incentivos: a cidade de Wuxi ofereceu até cinco milhões de yuans (US$ 726 mil, cerca de R$ 3,7 milhões) para aplicações do OpenClaw em robôs e produção industrial, e alguns subsídios relacionados chegaram a mencionar apoio de até 10 milhões de yuans (US$ 1,5 milhão, cerca de R$ 7,5 milhões) para “empresas individuais”, incentivando startups e empreendedores.

Ao mesmo tempo, surgiram limitações e riscos. Autoridades de cibersegurança de Pequim emitiram, no mês passado, alertas sobre os perigos da instalação e uso indevido do OpenClaw, e várias agências governamentais proibiram funcionários de instalar a ferramenta, invertendo a tendência inicial de adoção para remoção. Parte do entusiasmo também foi reduzida quando usuários passaram a calcular custos de uso e a considerar questões de segurança.

Especialistas e observadores destacam que a promoção da ferramenta está alinhada a uma estratégia estatal que estimula aplicar IA em setores como manufatura, transporte e saúde — o que tem sido chamado de “AI Plus”. Desde 2023, a imprensa chinesa notou a proliferação de modelos de IA, referida como a “Guerra dos 100 Modelos”: mais de 100 modelos surgiram desde então, com apenas cerca de 10 ainda concorrendo de forma relevante.

O debate sobre os impactos no mercado de trabalho também acompanha a adoção: a taxa de desemprego entre jovens na China supera 16%, e autoridades veem nas startups de IA uma possível saída para gerar ocupação. Observadores como Rui Ma, fundador da newsletter Tech Buzz China, ressaltam que as diretrizes de Pequim orientam empresas e investidores sobre onde estão as oportunidades, postura que ajuda a explicar a rápida adesão ao OpenClaw e a outras ferramentas de IA.

Embora a ferramenta tenha mostrado potencial prático para automatizar tarefas e gerar eficiência, a combinação de incentivos, riscos de segurança e custos de operação deixou clara a tensão entre promoção estatal e cautela administrativa no uso de assistentes de IA na China.

Com informações de G1

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William Kevim é profissional de tecnologia com profunda paixão por cultura e entretenimento. Frequentador assíduo de teatros e cinemas, acompanha de perto lançamentos musicais, produções cinematográficas e o universo dos animes. Colabora com os portais do R2 Mídia Group trazendo pautas leves, culturais e de entretenimento com entusiasmo e olhar apurado.