Cristais de memória podem guardar 360 TB por disco e desafiam limites do armazenamento de dados

William Kevim
5 Min Leitura

Centros de dados em todo o mundo consomem volumes crescentes de energia, água e matéria-prima. Para enfrentar esse desafio, o professor Peter Kazansky, da Universidade de Southampton, aposta em “cristais de memória” gravados a laser, tecnologia que surgiu de uma observação feita em 1999 durante uma visita ao laboratório de optoeletrônica da Universidade de Kyoto, no Japão.

Na ocasião, pesquisadores utilizavam lasers de femtossegundos – capazes de emitir pulsos de luz a cada quadrilionésimo de segundo – para escrever em vidro. O grupo percebeu que a luz se espalhava de forma incompatível com a dispersão de Rayleigh, fenômeno usual que explica, por exemplo, a cor azul do céu. A anomalia levou à descoberta de nanoestruturas formadas por “microexplosões” no interior do vidro de sílica.

Cerca de 27 anos depois, esses redemoinhos menores que um milésimo da espessura de um fio de cabelo são vistos como alternativa para armazenar grandes volumes de informação. O método codifica dados em cinco dimensões ao combinar localização tridimensional (x, y, z) com orientação e intensidade da luz. Segundo Kazansky, um disco de vidro de 12,7 cm pode guardar até 360 terabytes, sem necessidade de energia para conservação.

SPhotonix quer levar a tecnologia aos data centers

Para transformar o conceito em produto, o pesquisador fundou em 2024 a SPhotonix, que já captou US$ 4,5 milhões. A empresa negocia a instalação de protótipos em centros de dados dentro de dois anos. Hoje, a leitura atinge 30 MB/s; a meta é chegar a 500 MB/s em até cinco anos, desempenho semelhante às fitas magnéticas mais recentes (400 MB/s).

Apesar do avanço, o professor Srinivasan Keshav, da Universidade de Cambridge, avalia que a incompatibilidade com a infraestrutura atual cria barreiras para adoção imediata.

Pressão por novas soluções

O cenário de crescimento exponencial de dados reforça a busca por inovações. A consultoria IDC projeta 394 zettabytes gerados anualmente até 2028. Hoje, data centers já consomem 1,5 % da eletricidade global, percentual que pode dobrar até 2030, com emissão prevista de 2,5 bilhões de toneladas de CO₂.

Boa parte desse volume corresponde a “dados frios”, que não exigem acesso instantâneo. Atualmente, eles ficam em discos rígidos ligados permanentemente ou em fitas magnéticas que precisam ser substituídas entre 10 e 20 anos, ambas soluções que exigem refrigeração constante.

DNA e vidro de borossilicato entram na disputa

Outra aposta é o armazenamento em DNA, conceito proposto em 1964 pelo físico Mikhail Samoilovich Neiman. Um grama de DNA poderia arquivar até 215 petabytes, mas o custo de síntese continua elevado. A Microsoft, que já registrou 200 MB em DNA em 2016 e criou a Aliança de Armazenamento de Dados em DNA em 2020, é uma das empresas que pesquisam o tema.

A companhia também apoiou o grupo de Kazansky no Projeto Sílica entre 2017 e 2019. Em fevereiro de 2026, publicou na revista Nature um estudo que demonstra a gravação de informações em vidro de borossilicato – material comum em utensílios domésticos – com expectativa de durabilidade de 10 mil anos e custo inferior ao da sílica fundida. A linha, porém, ainda não está disponível comercialmente.

Eficiência segue no centro do debate

Para a professora Tania Malik, da Universidade Tecnológica de Dublin, sílica e DNA são opções sustentáveis, mas não devem substituir, a curto prazo, o armazenamento destinado a “dados quentes”. Ela defende melhorias em processadores, sistemas de refrigeração e otimização de software, além de critérios mais rígidos sobre quais informações realmente precisam ser mantidas.

TRANSMISSÃO: como assistir a um vídeo (YouTube)

Enquanto não se define a tecnologia predominante, empresas e pesquisadores continuam a buscar alternativas que conciliem demanda por espaço, consumo de energia e longevidade dos registros digitais.

Com informações de G1

Compartilhe essa Notícia
William Kevim é profissional de tecnologia com profunda paixão por cultura e entretenimento. Frequentador assíduo de teatros e cinemas, acompanha de perto lançamentos musicais, produções cinematográficas e o universo dos animes. Colabora com os portais do R2 Mídia Group trazendo pautas leves, culturais e de entretenimento com entusiasmo e olhar apurado.