A decisão do governo russo de bloquear completamente o WhatsApp em 12 de fevereiro e de iniciar, um dia antes, a redução gradual do acesso ao Telegram não alterou, na prática, a rotina de muitos estrangeiros que vivem no país. Brasileiros residentes em Moscou relatam que o uso de redes privadas virtuais (VPN) já faz parte do cotidiano desde 2022, quando a Rússia barrou Instagram e Facebook após classificar a Meta como organização extremista.
“Aqui não dá para viver sem VPN”, resume a mineira Paola Loureiro, 25 anos, mestranda em linguística na capital russa há dois anos e meio. Ela conta que instalou o recurso assim que desembarcou no país. A princípio, utilizava uma versão gratuita, mas passou a pagar cerca de R$ 10 mensais em setembro de 2025, quando chamadas de voz e vídeo foram restringidas tanto no WhatsApp quanto no Telegram. “Preciso falar com minha família no Brasil todos os dias”, afirma.
Ferramenta essencial
A VPN cria um “túnel” criptografado entre usuário e internet, mascarando a localização e liberando acesso a serviços bloqueados. Embora tenha sido concebida para permitir que funcionários de empresas se conectem com segurança aos sistemas internos, a tecnologia tornou-se indispensável para contornar censura online em diversos países.
Segundo a Meta, mais de 100 milhões de pessoas utilizam o WhatsApp na Rússia. Para Paola, o maior transtorno é a burocracia: “De tempos em tempos o governo bloqueia alguma VPN, precisamos baixar outra. Circulam links no Telegram, mas é cansativo”. Além de consumir mais bateria do celular, até versões pagas apresentam instabilidade ocasional, relata.
Bloqueio “invisível”
A pernambucana Clarissa Ribeiro, 25 anos, estudante de medicina veterinária na Academia Estatal de Medicina Veterinária e Biotecnologia, confirma que já estava habituada a manter o serviço ativo. “Nem percebi o bloqueio”, diz. Para testar, ela desligou a VPN e enviou mensagem para um contato no Brasil; o texto não chegou. Quando reativou o aplicativo, a entrega foi imediata.
Clarissa explica que, sem VPN, o WhatsApp parou de funcionar por completo. O Telegram, por sua vez, segue permitindo o envio e recebimento de mensagens, embora com lentidão. Instagram e Facebook continuam inacessíveis sem a ferramenta.
Pressão pelo aplicativo Max
Enquanto restringe plataformas estrangeiras, o governo promove o Max, aplicativo inspirado no chinês WeChat, que reúne mensagens e serviços estatais. Diferentemente do WhatsApp, o Max não possui criptografia de ponta a ponta. Temor de vigilância leva muitos jovens, inclusive brasileiros, a evitarem o app.
Paola conta ter recebido orientações informais na universidade para instalar o Max, mas não atendeu. Clarissa lembra que, em dezembro de 2025, um representante de turma publicou no grupo do Telegram um aviso atribuído à direção: se os alunos não baixassem o Max, não teriam autorização para as provas de janeiro. “Ignorei e fiz os exames normalmente”, relata. Segundo ela, a maioria também recusou o aplicativo sem sofrer consequências.
Mesmo diante de bloqueios recorrentes e da exigência de novos registros de VPN, brasileiras na Rússia consideram a ferramenta a única maneira de manter contato diário com parentes e amigos e de acessar redes sociais que, para o restante do mundo, continuam livres.
Com informações de G1
Siga o Foco SE e entre no nosso grupo de notícias de Sergipe.



