São Paulo – O físico Francisco Rodrigues, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), foi um dos 20 pesquisadores contemplados, em janeiro, com o Friedrich Wilhelm Bessel, prêmio concedido pela Fundação Alexander von Humboldt, na Alemanha. O reconhecimento, no valor de 60 mil euros (cerca de R$ 370 mil), destaca o impacto científico de seus estudos que aplicam inteligência artificial (IA) ao diagnóstico de transtornos mentais.
Rodrigues coordena pesquisas que treinam algoritmos a partir de imagens de ressonância magnética para reconhecer alterações cerebrais associadas a condições como epilepsia, autismo e esquizofrenia. Em testes de laboratório, o sistema atingiu taxa de acerto superior a 90%. Resultados foram divulgados em periódicos internacionais como Nature e PLOS One.
Potencial clínico e limitações atuais
Segundo o pesquisador, a tecnologia poderá auxiliar psiquiatras e psicólogos principalmente em casos nos quais sintomas se sobrepõem ou aparecem em estágios muito iniciais. “Hoje, com o procedimento tradicional, o profissional não consegue prever se alguém desenvolverá esquizofrenia daqui a dez anos”, afirma.
Dados do Censo 2022 reforçam a relevância da iniciativa: 2,4 milhões de brasileiros foram diagnosticados com transtorno do espectro autista; 1,6 milhão, entre 15 e 44 anos, convivem com esquizofrenia; e 1,7 milhão de pessoas acima de 60 anos apresentam algum tipo de demência, como Alzheimer ou Parkinson.
Apesar dos avanços, a coleta de dados ainda é um obstáculo. Ressonâncias exigem que o paciente permaneça imóvel por mais de 40 minutos, algo desafiador para quem tem déficit de atenção ou alterações cognitivas. Já eletroencefalogramas podem ser imprecisos. Por isso, os primeiros experimentos envolveram apenas algumas dezenas de participantes e recorreram a bancos de imagens dos Estados Unidos.
Colaboração com laboratórios alemães
O prêmio da Fundação Humboldt também viabiliza a próxima etapa do projeto: a análise de organoides cerebrais, os chamados “minicérebros”. Produzidas a partir de células do córtex de embriões animais, essas estruturas crescem em placas controladas. Microchips registram a atividade elétrica entre neurônios, fornecendo um banco de dados fundamental para aperfeiçoar o algoritmo e testar intervenções, como novos medicamentos.
Imagem: Divulgação USP
Rodrigues mantém vínculo com centros de pesquisa alemães desde 2006, quando foi aluno visitante do Instituto Max Planck. Em 2011, passou a colaborar com a professora Cristiane Thielemann, da Universidade de Ciências Aplicadas de Aschaffenburg — responsável por indicá-lo ao prêmio deste ano. Até o fim de 2026, o brasileiro se mudará para Frankfurt, onde permanecerá 12 meses desenvolvendo o estudo e lecionando dois cursos sobre sistemas complexos e aprendizado de máquina na própria Fundação Humboldt.
Próximos passos
A expectativa do grupo é que um protocolo de previsão e diagnóstico automatizado esteja disponível em até dez anos. Antes, será necessário ampliar a base de exames, aperfeiçoar o treinamento dos modelos de IA e obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Já demonstramos que a metodologia funciona, mas o processo regulatório e o aumento da escala de coleta de dados ainda demandam tempo”, diz Rodrigues.
Quando retornar ao Brasil, o pesquisador planeja manter a cooperação com universidades alemãs e instalar, na USP, uma plataforma capaz de integrar exames de imagem, registros de minicérebros e histórico clínico de voluntários, consolidando uma ferramenta nacional para apoio ao diagnóstico de transtornos mentais.
Com informações de G1
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