Com uma área de 8,9 mil quilômetros quadrados — aproximadamente um Distrito Federal e meio — Porto Rico convive há décadas com um status político considerado ambíguo. A ilha caribenha, onde vivem cerca de 3,2 milhões de pessoas que falam majoritariamente espanhol e cultivam tradições latino-americanas, pertence aos Estados Unidos, mas não é um de seus 50 estados.
Os porto-riquenhos circulam livremente pelo território norte-americano, têm cidadania concedida desde 1917 e elegem o próprio governador. Mesmo assim, não participam da escolha do presidente dos EUA nem contam com representantes com direito a voto no Congresso em Washington. Ao mesmo tempo, seguem todas as leis federais, prestam serviço às Forças Armadas estadunidenses e abrigam bases militares norte-americanas, sem autonomia para conduzir relações exteriores.
Colônia ou “Estado Livre Associado”?
Oficialmente, a Constituição norte-americana define Porto Rico como “Estado Livre Associado”. No entanto, acadêmicos e movimentos políticos descrevem a ilha como uma colônia moderna. O professor de relações internacionais Gustavo Menon, da Universidade Católica de Brasília, lembra que a legislação, o sistema de defesa e as decisões estratégicas permanecem sob controle de Washington, o que, em sua avaliação, caracteriza subordinação. Para as Nações Unidas, a autonomia administrativa impede a classificação de colônia clássica, mas o Comitê Especial de Descolonização do organismo considera o caso “colonial”.
Relatório do relator Koussay Aldahhak, divulgado em março de 2025, aponta que o autogoverno porto-riquenho está limitado pelas normas da Constituição dos EUA e pelas deliberações do Congresso, que retém poder sobre defesa, comércio exterior e política monetária.
Das guerras hispano-americanas aos referendos
Porto Rico permaneceu sob domínio espanhol até 1898, quando a Espanha perdeu a guerra para os Estados Unidos. A partir daí, a ilha passou ao controle de Washington, condição que perdura. Em 1952, foi criado o modelo atual de Estado Livre Associado.
Desde 1967, a população já foi consultada sete vezes sobre o futuro político. No pleito mais recente, em 2024, 58% escolheram tornar-se estado da federação norte-americana, 29% optaram por “livre associação” e 11% votaram pela independência. O referendo anterior, em 2020, registrou 52% a favor da elevação a estado e 47% contrários. As consultas, entretanto, não têm caráter vinculante e dependem de aprovação do Congresso dos EUA para surtir efeito.
Bad Bunny leva o tema ao palco do Super Bowl
A controvérsia ganhou projeção global em 9 de fevereiro, durante o intervalo do Super Bowl em São Francisco. Pela primeira vez, o principal evento esportivo da televisão norte-americana contou com um show inteiramente em espanhol, comandado pelo porto-riquenho Bad Bunny. No palco, o artista celebrou a cultura latino-americana, exibiu bandeiras de todos os países do continente e adaptou o tradicional lema “God Bless America” para pedir bênçãos a todas as nações das Américas.
Imagem: Kirby Lee-Imagn Images/ Reuters – Proibido reprodução
Crítico frequente da política migratória do ex-presidente Donald Trump, o cantor incluiu no repertório uma canção que faz referência ao Havaí — arquipélago que se tornou estado dos EUA em 1959 — como alerta para a preservação da identidade cultural porto-riquenha. A apresentação gerou reação de Trump, que, em rede social, classificou o espetáculo como ofensivo e incompreensível.
Protectorado, soft power e pressões internas
Para Gustavo Menon, setores da elite política norte-americana enxergam Porto Rico como um protetorado estratégico. O pesquisador afirma que artistas como Bad Bunny exercem “soft power”, reforçando laços com mais de 30 nações latino-americanas e pressionando Washington a rever o arranjo vigente.
Apesar da visibilidade internacional e do histórico de plebiscitos, qualquer mudança dependerá de decisão do Congresso dos Estados Unidos, que até agora não sinalizou disposição para alterar o status da ilha.
Com informações de Agência Brasil
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