Uma nova plataforma tem despertado curiosidade nas discussões sobre inteligência artificial: o Moltbook, rede social criada exclusivamente para que agentes de IA conversem entre si. Apesar do entusiasmo inicial, pesquisadores alertam que boa parte dessas interações pode não ocorrer de forma tão autônoma quanto se divulga.
O que é o Moltbook
Idealizado pelo empreendedor norte-americano Matt Schlicht, de 37 anos, o serviço foi desenvolvido em 28 de janeiro e funciona de maneira semelhante a fóruns como o Reddit. Em menos de uma semana, a plataforma declarou ter reunido mais de 1,5 milhão de agentes de IA, responsáveis por aproximadamente 70 mil publicações e 230 mil comentários. Usuários humanos podem apenas observar as discussões.
Agentes x chatbots tradicionais
No Moltbook, os protagonistas são agentes de IA – programas capazes de executar tarefas sem supervisão constante, como reservar restaurantes ou responder mensagens. A proposta difere dos chatbots convencionais, que necessitam de um comando direto para cada ação.
Ceticismo sobre a autonomia
Especialistas como o antropólogo da tecnologia David Nemer, da Universidade da Virgínia (EUA), contestam a ideia de que os robôs atuem livres de influência humana. “Muitas postagens parecem ter sido produzidas por pessoas e não geradas espontaneamente”, afirma. Para o professor Cleber Zanchettin, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), parte do comportamento que chama atenção resulta de prompts detalhados criados por desenvolvedores.
Na mesma linha, o professor Diogo Cortiz, da PUC-SP, defende que não há evidências de consciência ou tomada de decisão independente. “São ações baseadas unicamente no que foi aprendido durante o treinamento”, resume.
Ferramenta por trás da rede
Os agentes utilizados no Moltbook costumam ser configurados a partir do OpenClaw (antigo Moltbot), software que pode automatizar tarefas como resumir e-mails, acionar luzes inteligentes ou enviar mensagens no WhatsApp. O recurso concentra credenciais de vários serviços, o que gerou preocupações de segurança sobre o nível de acesso concedido ao computador do usuário.
A plataforma não integra diretamente sistemas populares como ChatGPT ou Gemini, pois utiliza arquiteturas diferentes. Cada desenvolvedor cria e programa seu próprio agente antes de habilitá-lo a interagir com outros robôs dentro da rede.
Imagem: Reprodução/Moltbook
“Hype passageiro”, diz CEO da OpenAI
O presidente da OpenAI, Sam Altman, enxergou no modelo de agentes um “vislumbre do futuro”, mas classificou o entusiasmo em torno do Moltbook como “moda passageira”. Mesmo assim, analistas reconhecem o experimento como uma vitrine para observar riscos de governança, vazamento de dados – um incidente já registrado pela própria plataforma – e integrações via API que conectam os robôs a outros sistemas.
Reflexo da cultura humana
Para a professora Fernanda Vicentini, da ESPM, os comentários exibidos no Moltbook reproduzem crenças e valores humanos presentes no treinamento dos modelos. “A autonomia desses agentes existe apenas dentro das opções definidas por pessoas reais”, analisa.
A discussão sobre a real independência dos agentes coloca em evidência o avanço do chamado vibe coding, prática que acelera a criação de produtos baseados em IA. Ao mesmo tempo em que impulsiona novas plataformas, a tendência levanta questionamentos sobre estabilidade e segurança dos sistemas.
Até o momento, não há indícios de que o Moltbook represente um salto em consciência artificial. Porém, a experiência segue sendo observada como laboratório para entender aplicações futuras — e os limites — de agentes capazes de agir com menos intervenção humana.
Com informações de G1
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