Alvo de recentes operações militares norte-americanas que buscam afastar Nicolás Maduro do poder, a Venezuela enfrenta há anos o impacto de medidas restritivas impostas por Washington. Tratam-se das chamadas Medidas Coercitivas Unilaterais, apontadas por pesquisadores como fator decisivo para o colapso econômico do país.
Relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) e estudos acadêmicos destacam que embargos prolongados se tornaram instrumento recorrente de política externa para pressionar governos considerados adversários, cenário que se repete em nações como o Irã.
A economista e socióloga Juliane Furno, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), explica que o objetivo dos bloqueios é “asfixiar experiências políticas que fogem ao controle dos países imperialistas”, gerando insatisfação social capaz de provocar mudança de regime.
Dona das maiores reservas de petróleo do planeta, a Venezuela passou a ser alvo das sanções sob o argumento de defesa dos direitos humanos, promoção da democracia e combate ao narcotráfico.
Embargo econômico
O cerco financeiro restringiu o refinanciamento da dívida venezuelana, impediu transações em instituições internacionais e congelou ativos no exterior. Portugal e Reino Unido seguiram a postura dos Estados Unidos; apenas o Banco Central da Inglaterra reteve 31 toneladas de ouro avaliadas em US$ 1,2 bilhão. Além disso, dividendos da Citgo — principal subsidiária da estatal PdVSA nos EUA — foram bloqueados e a companhia foi liquidada em 2025 para satisfazer credores, ação classificada por Caracas como “roubo”.
Recessão e migração
Entre 2013 e 2022, a economia venezuelana encolheu cerca de 75% do PIB. O quadro estimulou a saída de mais de 7,5 milhões de habitantes, correspondente a 20% da população. Embora a recessão tenha começado em 2014 após a queda de quase 70% no preço do barril, as sanções amplas foram oficializadas apenas em agosto de 2017, no primeiro governo Donald Trump, que fechou o acesso de Caracas ao mercado financeiro norte-americano.
O economista venezuelano Francisco Rodríguez, professor da Universidade de Denver, reconhece falhas da gestão interna anterior a 2017, mas afirma que o embargo “foi um dos principais fatores que contribuíram para o colapso econômico” e para o êxodo em massa. Segundo seus cálculos, a retomada de sanções de “pressão máxima” poderia acrescentar 1 milhão de emigrantes nos próximos cinco anos.
Queda da indústria petroleira
Com 95% das receitas de exportação vinculadas ao petróleo, a Venezuela sentiu de forma acentuada a contração do setor. O recuo, que era de 11,5% em 2017, subiu para 30,1% no ano seguinte, primeiro após o bloqueio financeiro, resultando na perda de US$ 8,4 bilhões em divisas, de acordo com pesquisa dos economistas Jeffrey Sachs e Mark Weisbrot.
Inflação e recuperação parcial
A mesma pesquisa do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (CEPR), sediado em Washington, avalia que a redução abrupta das receitas levou a Venezuela de um patamar de inflação alta para hiperinflação, oficializada em dezembro de 2017. Juliane Furno lembra que a situação se agravou em 2019 com o bloqueio de reservas em ouro e a proibição de vender petróleo aos Estados Unidos, estimada pelo então assessor de Segurança Nacional John Bolton em perda de US$ 11 bilhões em 2020.
Algum alívio veio a partir de 2022, quando parte das restrições foi flexibilizada pelo governo Joe Biden. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) indicam crescimento de 8,5% do PIB venezuelano em 2024 e projeção de 6,5% em 2025.
Base legal das sanções
A legislação que sustenta o bloqueio foi aprovada em dezembro de 2014, no governo Barack Obama, poucas semanas após manifestações conhecidas como “A Saída” que pediam a deposição de Maduro. Em março de 2015, a Ordem Executiva 1.692 declarou “emergência nacional” nos Estados Unidos, permitindo ao presidente aplicar sanções contra Caracas por representar suposta “ameaça incomum e extraordinária” à segurança norte-americana.
Desde então, Washington justifica as restrições como ferramenta para pressionar o governo venezuelano sobre direitos humanos, democracia e combate ao narcotráfico — justificativas contestadas por pesquisadores que atribuem às medidas parte substancial da degradação econômica e social do país.
Com informações de Agência Brasil
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