Jamil Chade expõe desumanização de imigrantes nos EUA sob Trump em obra recém-lançada

Robson Alves
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O jornalista brasileiro Jamil Chade lançou o livro “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”, pela editora Nós, no qual descreve a escalada de hostilidade contra imigrantes nos Estados Unidos durante a gestão de Donald Trump. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, o correspondente relata ter percorrido, entre 2024 e 2025, milhares de quilômetros por mais de uma dezena de estados norte-americanos e visitado os dois lados do muro que separa o país do México.

A crise do “sonho americano”

Segundo Chade, o fenômeno Trump é reflexo de uma “crise existencial” na sociedade dos EUA, marcada pelo esgotamento dos mitos do sonho americano e do destino manifesto. Para ele, o governo republicano tenta recuperar uma hegemonia “irrecuperável”, gerando um ambiente que o autor classifica como distópico. Municípios no Arkansas e periferias de grandes centros foram citados como exemplos de locais empobrecidos, comparados por Chade a cenários “fantasmagóricos”.

Desumanização como estratégia

O jornalista afirma que a desumanização de estrangeiros é deliberadamente construída para retirar direitos básicos. “Quando você desumaniza, autoriza o ódio”, declarou. Chade compara a retórica contra imigrantes a um primeiro passo de processos violentos, defendendo que a narrativa sustenta deportações, xenofobia e racismo.

Desinformação e “democracia hackeada”

Chade também aponta o papel das plataformas digitais na propagação de teorias da conspiração, como a negação da crise climática, e diz que a vitória de Trump em 2024 ocorreu apesar dos esforços da mídia tradicional. Para ele, a proliferação de informações falsas exige regulamentação das redes sociais. O jornalista acusa veículos alinhados ao ex-presidente, como a Fox News, de conceder “verniz de notícia” a conteúdos conspiratórios.

Uso da força federal e mudanças eleitorais

Na entrevista, o autor critica a utilização da Guarda Nacional em cidades administradas por democratas, classificando a medida como intimidação e possível ensaio para estado de sítio. Ele também condena a redefinição de distritos eleitorais no Texas, alegando que a alteração atende ao objetivo de preservar a maioria republicana nas eleições legislativas de 2026 e “distorce a vontade popular”.

Democracia em risco

O jornalista sustenta que instrumentos democráticos vêm sendo manobrados para manter um grupo no poder. Segundo ele, leis são modificadas, há enfrentamento com o Judiciário e restrições indiretas à liberdade de expressão. “Ainda não sabemos se a democracia sobreviverá a isso”, afirmou.

Repercussões globais e América Latina

Chade avalia que Trump busca desmontar a ordem internacional pós-Segunda Guerra por considerá-la limitadora de seus interesses. Em resposta, países da Organização para Cooperação de Xangai — Índia, China e Rússia — estariam se aproximando para criar nova configuração geopolítica.

Para a América Latina, o jornalista prevê pressão crescente de Washington em disputa com a China. Ele classifica o Brasil como “joia da coroa” nas ambições norte-americanas e destaca que as eleições brasileiras de 2026 serão decisivas para a correlação de forças no continente, onde, segundo ele, Argentina, Paraguai, Peru, Equador, Guiana e Bolívia já estariam na órbita dos EUA.

Trajetória pessoal

Correspondente internacional há 25 anos em Genebra, na Suíça, Jamil Chade já visitou 70 países. O título do livro faz referência a uma frase de preconceito dirigida ao seu filho em uma escola de Nova York. Ele ressalta que a criança que proferiu a frase “é tão vítima quanto” seu filho, por ter sido exposta a uma liderança que transforma “o outro em inimigo”.

“Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana” já está disponível nas livrarias físicas e on-line.

Fonte: Agência Brasil

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.