Especialistas contestam rótulo de “narcoestado” atribuído pelos EUA à Venezuela

Robson Alves
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Analistas de segurança e drogas ouvidos pela Agência Brasil consideram exagerada a classificação da Venezuela como “narcoestado”, expressão adotada pela administração Donald Trump para justificar possíveis ações militares contra o país sul-americano.

Questionamento ao termo

A consultora sênior da União Europeia para Políticas sobre Drogas na América Latina e Caribe, a advogada Gabriela de Luca, afirma que investigações indicam a participação de militares e autoridades venezuelanas em esquemas de tráfico, sobretudo em áreas de fronteira, mas não comprovam a existência de uma estrutura centralizada sob comando do presidente Nicolás Maduro.

“Não há provas de que o Estado esteja a serviço do narcotráfico”, disse De Luca. Segundo ela, redes difusas — e não um cartel típico como o mexicano de Sinaloa — operam facilitando a passagem de drogas.

Acusações de Washington

Na semana passada, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio declarou no Paraguai que o governo venezuelano age como “uma organização criminosa” e chefia o chamado Cartel de los Soles. A Casa Branca elevou a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro de US$ 25 milhões para US$ 50 milhões.

A procuradora-geral norte-americana Pamela Bondi sustenta que o presidente venezuelano estaria ligado a grupos como o Tren de Aragua e ao cartel mexicano de Sinaloa. O governo dos Estados Unidos afirma ter apreendido 30 toneladas de cocaína associadas a Maduro e aliados, sendo quase 7 toneladas diretamente ligadas ao mandatário.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, contestou: “Não há nenhuma investigação que ligue Maduro ao Cartel de Sinaloa; se houver provas, que sejam apresentadas”.

Divergências internas nos EUA

Ex-chefe do Centro de Crimes e Narcóticos do governo norte-americano, o professor Fulton Armstrong declarou à organização Codepink que “nenhum analista sério” fora do governo reconhece a existência do Cartel de los Soles como estrutura organizada.

Análise de dados sobre o tráfico

Levantamento do Washington Office on Latin America (WOLA) — crítico ao governo Maduro — concluiu, com base em estatísticas oficiais dos EUA, que o papel venezuelano no comércio global de drogas é “frequentemente exagerado”. Estimativas citadas por Gabriela de Luca apontam que entre 7% e 13% da cocaína mundial transita por território ou águas da Venezuela, enquanto a produção se concentra em Colômbia, Bolívia e Peru.

Relatórios recentes da ONU e da União Europeia não incluem a Venezuela como ator principal no mercado global; mencionam, em vez disso, Equador, Brasil e Colômbia.

Possibilidade de intervenção

As novas ameaças de Washington incluem o envio de navios de guerra e de aproximadamente 4,5 mil militares para a costa venezuelana. O coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro e doutor em ciências sociais Robson Rodrigues avalia que a medida não contribui para combater o narcotráfico. Segundo ele, seria necessário “trabalho de inteligência em parceria com os países da região”, além de reduzir o fluxo de armas que parte dos próprios Estados Unidos.

Rodrigues observa que o envolvimento de autoridades com o tráfico não se restringe à Venezuela, citando casos registrados nos EUA.

Contexto histórico

Washington não realiza uma intervenção militar direta na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989, quando alegou vínculos do então presidente Manuel Noriega com o narcotráfico. A Venezuela, que detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, mantém relação conflituosa com os EUA desde a ascensão de Hugo Chávez, há 25 anos.

Com informações de Agência Brasil

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.