Grupos organizados em plataformas digitais transformaram a falsificação de receitas, atestados e laudos médicos em um negócio de grande alcance no Brasil. Levantamento inédito realizado pelo pesquisador Ergon Cugler, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que as publicações que oferecem documentos falsos no Telegram saltaram de 686, em 2018, para mais de 15 mil por ano. Até julho de 2025, essas postagens acumularam cerca de 500 mil visualizações.
De acordo com o estudo, mais de 27 mil usuários participam ativamente dos canais onde os documentos são vendidos. A operação conta com bots, perfis falsos e pequenos “marketplaces” que garantem pagamentos rápidos e entrega imediata, reduzindo o risco de rastreamento.
Como funciona o esquema
Em poucos segundos de busca no Telegram, a reportagem encontrou anúncios de três tipos de receita: branca (medicamentos comuns), azul (psicotrópicos) e amarela (entorpecentes). Os formulários chegam ao comprador com dados verdadeiros de médicos, incluindo carimbo e número de CRM, para conferir aparência de legitimidade. As instruções sugerem imprimir em papel comum, circular por farmácias menores e assinar sobre o carimbo para evitar suspeitas.
Os vendedores também oferecem atestados customizados. O cliente define a quantidade de dias de afastamento, escolhe o CID da doença e até a recomendação clínica. Além disso, remédios controlados, inibidores de apetite e medicamentos abortivos são comercializados sem exigência de receita.
Médicos afetados
O pediatra João Batista, 72 anos, descobriu ter emitido, sem saber, nove atestados para uma pessoa que jamais atendeu. “Não sei como meus dados foram parar nesses documentos”, relatou após ser notificado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo.
Carlos Magno Dalapicola, conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM), também foi vítima: um atestado de dez dias circulou com seu nome e CRM. Ele registrou boletim de ocorrência, mas reconhece que muitos colegas nem chegam a saber que tiveram a identidade usada.
Lucro nas grandes plataformas
Embora o Telegram concentre a maior parte das ofertas, Google, Facebook, Instagram, X e TikTok também exibem anúncios ou publicações que direcionam para vendedores. Relatos indicam que o Google e a Meta chegaram a receber por anúncios pagos desse mercado clandestino. No TikTok, vídeos ensinam a conseguir os documentos, enquanto nos comentários surgem contatos de vendedores.
Imagem: g1.globo.com
Medidas de controle
Para coibir fraudes, o CFM desenvolveu um sistema digital que rastreia a emissão de atestados usando biometria e assinatura eletrônica. A plataforma, porém, está suspensa por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região após ação do Movimento Inovação Digital, que alega risco de monopólio.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também atua na área. Desde julho, a agência gera de forma centralizada os números de receitas de medicamentos controlados. Em fase piloto, três plataformas de prescrição — duas privadas e a do CFM — já solicitam, em tempo real, códigos validados pela Anvisa, permitindo checagem imediata nas farmácias.
Ausência de resposta das empresas
O g1 procurou o Telegram, Google, Meta e X, mas não recebeu retorno. O TikTok informou dispor de uma equipe de segurança com mais de 40 mil profissionais para remover conteúdos que ferem suas políticas.
Risco à saúde pública
Especialistas alertam que o acesso facilitado a medicamentos controlados, sem acompanhamento médico, expõe pacientes a efeitos adversos graves e caracteriza exercício ilegal da medicina. “Se houver reação, quem responde?”, questiona Marun Cury, diretor de Defesa Profissional da Associação Paulista de Medicina.
Com informações de g1
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