Gurus da “machosfera” lucram com cursos caros e algoritmos que empurram discurso de ódio, revela jornalista britânico

William Kevim
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O jornalista e escritor britânico James Bloodworth passou cerca de seis meses imerso em fóruns, conferências e cursos destinados a homens que procuram “aprender” como controlar ou conquistar mulheres. A investigação resultou no livro Lost Boys: A Personal Journey Through the Manosphere (“Garotos Perdidos: Uma Jornada Pessoal pela Machosfera”, em tradução livre), que detalha como criadores de conteúdo e autointitulados “gurus” transformam inseguranças masculinas em um negócio milionário e disseminam ideias misóginas pela internet.

Modelo de negócio

Entre os eventos visitados por Bloodworth está uma conferência nos Estados Unidos que cobrava US$ 10 mil (aproximadamente R$ 55 mil) por participante. O pacote incluía palestras sobre como se tornar um “macho alfa”, sessões de fotos em mansões alugadas e até a possibilidade de posar com carros de luxo, como Lamborghinis, para reforçar uma imagem de sucesso nas redes sociais.

Segundo o repórter, o esquema se assemelha a outros golpes on-line — como falsas promessas de enriquecimento rápido ou pirâmides de venda —, mas vai além do prejuízo financeiro. O conteúdo serve de porta de entrada para a radicalização de homens, especialmente adolescentes, contra as mulheres.

Algoritmos aceleram a radicalização

Estudos citados por Bloodworth indicam que basta assistir a um único vídeo com teor misógino para, em menos de uma hora, o usuário receber recomendações de materiais ainda mais agressivos, alguns já banidos anteriormente. Dessa forma, as timelines acabam inundadas por mensagens de ódio contra mulheres.

Um levantamento feito na Austrália mostrou que jovens que começam assistindo a vídeos do psicólogo canadense Jordan Peterson rapidamente recebem sugestões de conteúdos de Andrew Tate, influenciador acusado de estupro, tráfico de pessoas e formação de quadrilha para exploração sexual. Tate, ex-lutador de kickboxing, é apontado como referência para muitos garotos britânicos.

A “regra 80/20”

Os cursos analisados pelo jornalista quase sempre se apoiam na chamada “regra 80/20” — a afirmação de que 80% das mulheres estariam interessadas em apenas 20% dos homens, considerados bem-sucedidos e dominadores. O medo de ficar fora desse seleto grupo serviria como gatilho para atrair novos clientes para mentorias, grupos pagos e assinaturas.

Perfil dos participantes

Bloodworth relata ter encontrado desde adolescentes de 13 anos, que conheceram o universo via YouTube, até homens que gastaram economias inteiras para participar de programas em Las Vegas. Havia jovens com poucos recursos e empresários bem-sucedidos, muitos deles recém-divorciados. Apesar da diversidade, todos compartilhavam algum nível de insegurança em relação a relacionamentos e status social.

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Imagem: g1.globo.com

Avanço sobre o mainstream

Embora as vertentes mais extremas da “machosfera” continuem restritas, suas ideias vêm ganhando espaço fora desses círculos. Pesquisa no Reino Unido apontou que 53% dos homens de 16 a 24 anos acreditam que a maioria das mulheres só se interessa por um grupo pequeno de homens. No mesmo segmento, 51% afirmam que a busca por igualdade feminina foi longe demais e passou a discriminar os homens.

Para Bloodworth, figuras como Andrew Tate funcionam como “isca”, mas o maior risco pode vir de influenciadores politicamente mais hábeis e sem processos judiciais, capazes de levar conceitos misóginos ao debate público com linguagem moderada.

O autor defende que conhecer termos como incel (celibatário involuntário) e redpill (pílula vermelha) ajuda a identificar comportamentos controladores e abusivos. Ele também sugere que amigos homens intervenham quando percebem conhecidos mergulhando nesse tipo de conteúdo, já que conselhos dados por mulheres costumam ser ignorados pelos adeptos da machosfera.

Com informações de G1

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William Kevim é profissional de tecnologia com profunda paixão por cultura e entretenimento. Frequentador assíduo de teatros e cinemas, acompanha de perto lançamentos musicais, produções cinematográficas e o universo dos animes. Colabora com os portais do R2 Mídia Group trazendo pautas leves, culturais e de entretenimento com entusiasmo e olhar apurado.